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Bom dia! Quarta-feira 27 de Maio de 2020 - 05:59:54  -   Passagem das Pedras, Picos - Piauí

Postado em: 23/08/2014 12:27:31 - Por: Eliane Madeira - Visitas: 1491

Eliane Madeira (Poesias)

Nasceu em Simplício Mendes

Eliane Madeira Moura Fé Dantas, nasceu em Simplício Mendes a 16 de abril de 1957, filha de Ney Madeira Moura Fé e Noeme

Eliane Madeira (Poesias)

HINO DE SIMPLÍCIO MENDES
 ( Letra e música de Jonas Moura)

Exaltemos nossa terra
Tão querida e juvenil
Pequenina mas encerra
Um pedacinho do Brasil

Os teus filhos se conduzem
Com amor e devoção
Cidadezinha risonha
Vive em meu coração

Simplício Mendes
Terra amada, terra gentil
Onde canta as passaradas
Onde canta lindas flores mil.

 

LÍNGUA DE TRAPO

Quando criança
Amava o azul,
Que era a cor do céu,
Que era a cor do mar,
E via muito azul
Nos olhos dos meus sonhos
No miosótis lá da praça
E nas piadas dos meninos
Quando me viam de azul:

"- Ei, de azul,
que eu pra tu?"

Apesar de amar o sol,
Odiava o amarelo,
Pois os meninos me irritavam
Quando me viam nesta cor:

"- Ei, de amareeeeloooo,
Pra que te queeeeroooo????
Pra jogar no cemitééééériooo!!!"

Passei a amar o vermelho...
Sangue! Gueeerra!! Fogarééééu!!! Cééééééuuuuuus!!!!
Aí os meninos gritavam:

"- Ei de vermêi!...
Saaai do mêi, cú vermêi!"

Ai! Meu Deus!
Que cor vestir agora?
Da língua dos garotos
Cor nenhuma escapava.
O verde era triste: "picolé de abacate"
O branco sujava,
O preto era luto,
O marrom... arre! Muito quente!
"- Promessa de São Francisco."
O rooooxo!
Tinha gosto de sexta-feira santa...

***
Eliane Madeira Moura Fé Dantas
Picos - PI, abril de 2007

 

 

TROPEÇÃO

Um dia
A caminho da bodega
Topei com um colega
Traquino e espertalhão.
Me chamou tão gentilmente
Pra me mostrar todo contente
Um pedaço de pão.
E eu, sem perceber tanta malícia,
Me preparei atentamente
Pra ouvir a indagação:

"- TU QUER?"

"- queeeeeeeeroo!"

"- COÇA O PÉÉÉÉÉ!"

Fiz uma cara de muxoxo
Aí ele pergunta todo frouxo:

"- TU QUER NÃÃÂÃÃÃOO!..."

"- quero nããão..."

"- COÇA A MÃÃÃO!!"

Me virei pra ir embora,

"- PERAÍÍ!!" Gritou o danado, "- TU QUIRIIIIIA?..."

"- quiriia..."

"- COÇA A VIRIIIIIIAAA!"

***


Eliane Madeira Moura Fé Dantas
Picos - PI, abril de 2007

 

 

ENTRESAFRA

A infância no meu tempo, era assim:
Se a gente pedia
A gente era PIDONA,
Se a gente não dava
A gente era SOVINA,
E a gente não podia sequer ser curiosa...
Que é que óia?
Será Jibóia?
Que é que espia?
Será Cutia?
Que é isso?
É risco.
Cadê fulana?
Taqui, ó,!*
***
*Apontava o dedo pra dentro do próprio olho

2009 - Eliane

 

 

REVIVENDO

Quero uma casinha
Sem muro alto na frente
Sem grades nas janelas
Com paredes brancas
De barra azul
E rodapé de mosaico.

Um jardim na entrada
Para que eu veja um Beija-flor
E bertalhas se enrramando
Na coluna da varanda.

Atrás, um quintal
Com um portão aos fundos
Fechado com tramela,
Que nas manhãs eu possa abrir
Para entrar os jumentos
Trazendo a lenha para acender o fogão,
E duas ancras a despejar nos potes
Coando com um pano a água de beber.

Também quero
Um chiqueiro de porcos
Um poleiro de galinhas
Uma sentina no canto
Um chuveiro de flandre
Um pé de cajá
Um pé de limão
Um pé de laranja
E pimenta malagueta.

Quero na cozinha
Um fogão de ferro,
Chaminé furando o telhado
Cozinheira, copeira,
Uma despensinha, um peitoril,
Um balde pra juntar lavagem
Pra dar de comer aos porcos,
E mais adiante um pilão de tronco
Enfiado no chão
Pra pilar minha paçoca.

Na copa, uma mesa
Muitos bancos e cadeiras
Uma banca de pote
E prateleira.

Ao lado uma caixa gigante
Pra guardar as chuvas
Pro ano inteiro.

Quero em cada quarto
Pinico, penteadeira
Tornos de madeira
Cabides atrás das portas,
Cama, um cortinado de filó,
Um baú e um bocado de redes.

Uma sala de estar,
Uma sala de visitas,
Uma sala de espera.

Em algum canto, uma cristaleira,
Uma máquina de costura,
Um rádio ABC,
Uma geladeira
E uma lata de querosene.

No meu quarto quero um telhado
Com goteiras nas telhas
Pra que me vejam a lua e as estrelas
E pra que me molhem os pingos da chuva.

Quero uma calçada de cimento,
Uma pedra de tabatinga
Pra riscar meus desenhos
De pular macaco,
E nos dias de chuva grossa
Deslizar de barriga
Mergulhando os cabelos
Debaixo das bicas.
***

Eliane Madeira Moura Fé Dantas
Picos - PI, dezembro/2009

 

CHICOTE MANGUÁ

Um dia eu e as primas
Caminhamos dois quilômetros
Até a roça do vovô
Só para arrancar bonecas de milho
pra gente brincar de enfeitar nossos sonhos
pentear seus cabelos,
fazer lindas tranças
fazer lindos cachos
e colocar um lindo laço.

Levamos um côfo e enchemos de espigas
Quando lá se vem, esbravejando, o vovô
Com seu chicote manguá.

E lá fomos nós com os pés na carreira pra dentro do mato
Deixando tudo pra traz,
O côfo cheio de bonecas,
Os cabelos? Nem penteamos!
Não fizemos as tranças,
Não fizemos os cachos,
E nem pusemos o laço.
Sem começo, nossos sonhos terminaram...
Também deixamos pra trás o prejuízo
que a gente sequer sonhava que fazia pro vovô
Na roça, em seu milharal.
***

 

CALUNDÚ

Levei uma pisa de chicote de corda de cabelo de rabo de cavalo
Só porque tava de calundu.
Aliás, eu nem lembro porque tava mesmo de calundú.
Acho que era porque eu não queria tomar banho, e sim, só me lavar.
Queria só abrir a torneira do quintal
E lavar minhas pernas do joelho pra baixo,
Meus braços, meu rosto e pronto. Já ficava asseado.
Na pressa, só "se lavar" valia como um banho.
Mas minha mãe me botou na marra debaixo do chuveiro.
Aí depois quando saí do banheiro
Fiquei de cócoras e dei aquele calundu.
Lá se veio meu pai que, sem eu saber, de longe observava,
Pegou meu braço, me levantou e me deu aquela pisa
Com chicote de corda de cabelo de rabo de cavalo.
Em volta dele eu ficava rodando e o chicote atrás,
Até passar a raiva e a vontade.
Depois da surra fiquei num canto, de cócoras, soluçando,
Até ficar com sono e dormir no chão.
Acordei booooooooooazinha...!
Nem lembrei da pisa com chicote de corda de cabelo de rabo de cavalo.
***
Eliane 20/03/2010

 

EI

Apressada sem olhar nem para os lados
Ouvi a meninada a gritar:

- Ei - ei - ei!

Eu me virei.

E a meninada perguntou:

- Teu nome é ei?

Sem graça, prossegui o meu caminho.
Ao longe ainda ouvi os engraçadinhos:

- Ei - ei - ei! teu nome é ei?
- Ei - ei - ei! teu nome é ei?
- Ei - ei - ei! teu nome é ei?

***
Picos, 27/03/2010

 

SACRIFÍCIO

Por falta de uma copeira,
Mamãe distribuía as tarefas.
As três mais velhas, muito espertas, corriam na frente,
E pegavam a melhor parte da faxina,
A vassoura, o balde, o pano e o espanador.
Para mim caçula ingênua,
Restava carregar os pinicos.

Eu chorava mas nada adiantava.
Era caçula, e caçula não tinha querer.

Birrenta, me deram outro serviço:
Varrer a sala até a porta da cozinha.

Arrependi-me, pois a sala era tão grande
Que mais parecia um salão de dança.

Cansada e com as mãos cheias de calos
Ainda deixei poeira pra todo lado.

Reprovada, voltei a carregar os pinicos.

***
Eliane
Picos, abril/2010

 

ILUSÃO DE ÓPTICA

Um belo dia
No auge da minha infância
Após as brincadeiras na praça
Entrei correndo em casa
Pra beber um copo d'água.

Abri a geladeira
E eis com que me deparei
Bem visível na porta embaixo,
Uma garrafa com um líquido
De um escuro grená.

Em questão de segundos
Minha boca se encheu e salivas
Ah! Quase nem acreditei:

- CINZANO!

Peguei a garrafa e minha mente leu.
Isso mesmo, CINZANO.

Meu anjinho vermelho logo me atiçou.
Oh! Danação de menino!
Peguei um copo e despejei
Uma dose generosa
Para matar a saudade...
Até parecia que há muito tempo não sentia
O sabor do doce e suave cinzano...

Levei o copo à boca
E numa goelada só
Quebrei meu encanto...
Me subiu um arrepio
A garganta fechou-se em trauma,
Meu rosto em trejeitos
Numa careta repugnante.

Tal como um purgante
O amargor da bebida
Me trouxe á realidade.

Peguei a danada da garrafa e encarei.
O líquido que antes enxergava grená,
Era de um vivo vermelho.

Reli o rótulo e vi meu engano.
Ao invés de cinzano, estava escrito:
- CAMPARI!
***
Picos, 23/01/10

 

DESPERTADOR

O amanhecer em Teresina
No poente do meu lar
Quando durmo no terraço
Olha quem vem me acordar:

- Bem-te-vi! Bem-te-vi!

E quando durmo no meu quarto
No nascente do meu lar
Entre os galhos das mangueiras
Olha quem vem me acordar:

- Fogo 'pagou! Fogo 'pagou!
***
Picos, 14/02/2010

 

EN-EN

Levei uma queda,
Meu pedaço de pão
Que tava na minha mão
Caiu no chão.

Alguém falou
Não pegue o pão
Pois é sujo o chão.

Peguei do chão
E comi o pão
Só pra não dá gosto ao cão.
***

Picos, 14/03/2010

 

BIBELÔ DE SÃO JORGE

Subi na janela pra malinar
No guarda-roupa da minha mãe.
De cima caiu no chão
Um bibelô de São Jorge no cavalo matando o dragão.

Desci da janela e desesperada tentei
Juntar os cacos e remendar.
E como vi que não tinha mais jeito,
Chamei-a para a verdade contar.

Fiquei aliviada e tão feliz
Quando a vi sorrindo e me dar seu perdão.

Só que até hoje não esqueço
O bibelô de São Jorge no cavalo matando o dragão,
Lá em cima do guarda-roupa
No quarto da minha mãe.

***
Fevereiro/2010

 

BIBELÔ I

Pólo Norte na minha casa
Era em cima da geladeira.
Lá morava um pingüim.
***

 

Bibelô II

Na varanda da minha casa
Pendurado na parede
Três borboletas e três pássaros.
***
23/01/10

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