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Bom dia! Segunda-feira 21 de Outubro de 2019  -   Passagem das Pedras, Picos - Piauí

Postado em: 15/05/2014 - Por: Vilebaldo Rocha - Visitas: 1615

Do Livro Cacos de Vidro - Poesia de neon

Segundo lugar no Concurso de Poesia Lucídio Freitas

Poesia de Neon, do poeta e ator, Vilebaldo Rocha, ganhou o  segundo lugar no Concurso de Poesia Lucídio Freitas - Promovido pela Academia Piauiense de Letras.

Do Livro Cacos de Vidro - Poesia de neon

Agora que o sol nasce por entre os edifícios;
Picos é uma lembrança: Paisagem eterna dos meus olhos.
Meus olhos já não vislumbram mais a serra do pau-d'árco,
Nem o Morro-Quebra-Pescoço nem as torres da Matriz.
Por isso este meu olhar de passarinho acanhado.

Menino andando a esmo no meio da multidão.

Com olhos de espanto e medo
encharco as retinas com a beleza da menina projetada.
Vou passeando sobre a poesia de Oscar:
Entre versos de concreto e ferro,
Entre homens de cimento e dor.

A vida passa correndo nas calçadas e no asfalto.

O farol. Os automóveis. A arena diária.
A luz vermelha domando os cavalos-motores.
Os homens na faixa. Os homens nos carros. A vida...
A vida não vale nada. Um descuido. Uma encruzilhada.
Um passo a mais ou a menos... mais uma retina fechada.

Vida, noves fora nada.

A larga solidão das avenidas.
O largo passo em asas de avião.
Os ônibus abarrotados de pernas e mãos.
Os pneus cantando a cantiga rude:
A vida é dura pra quem tem o pé no chão.

"O meu Deus sabe da luta de um ponto de ônibus". (*)

Os caminhos se cruzando onde o destino quer.
Os automóveis voando querendo avançar o tempo.
As pessoas se entrelaçando no vai-e-vem do crochê.
Os relógios cronometrando a distância e o tempo.
E um poema em desespero amarrado na garganta.

Tenho um olá, um bom dia, é de bom grado. Quem quer???

Os gritos dos pneus multiplicando o tédio e o medo.
Mulheres a silicone vendendo gato por lebre.
Em cada gesto um mistério, em cada olhar um segredo.
No bar um momento de paz para afogar o cansaço.
E a lua também nascendo por entre os edifícios.

Algum poeta escrevendo poesia de neon.

No apartamento a tv traz a notícia, traz o mundo.
Mas não me mostra a cara do meu vizinho.
Um passarinho assustado pousou na varanda do quarto andar.
Sorriu, cantou e voou por entre as árvores de pedra.
Sou passarinho e moro na gaiola do quarto andar.

Cada dia é mais difícil conjugar o verbo amar.

* Segundo lugar no Concurso de Poesia Lucídio Freitas - Promovido pela Academia Piauiense de Letras.

(*) Verso da poesia Deus Eclético do poeta Carlos Eugênio.

(Cacos de Vidro - 2000)

 

 

 

 

 

 

 

 

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