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Bom dia! Quarta-feira 17 de Outubro de 2018  -   Passagem das Pedras, Picos - Piauí

Postado em: 17/09/2018 - Por: Luiz Egito de Souza Barros - Visitas: 84

A Inauguração da Casa do Senador

Senador Otaviano vivia sua primeira legislatura. Construiu uma nova residência em um bairro nobre, com recursos próprios, é claro

Garçons rigorosamente trajados e identificados com crachás. Lindas garçonetes ofereciam os mais delicados vinhos e licores...

A Inauguração da Casa do Senador

Senador Otaviano vivia sua primeira legislatura. Construiu uma nova residência em um bairro nobre, com recursos próprios, é claro, e queria oferecer a seus amigos uma pomposa festa.
Aproximava-se o período eleitoral e, por isso, não poderia deixar de convidar também alguns dos seus eleitores e cabos eleitorais mais próximos, pois deixar de convidá-los poderia minguar seus votos na urna.
Garçons rigorosamente trajados e identificados com crachás. Lindas garçonetes ofereciam os mais delicados vinhos e licores. Bebidas importadas e comidas finas eram servidas fartamente. Além disso, uma rica mesa de frios, salgadinhos, doces, sucos naturais e frutas diversas, para quem quisesse servir-se à vontade ornava o espaço logo mais adiante.
O parlamentar mostrava a seus amigos as portas trabalhadas em madeira nobre, as piscinas desenhadas cuidadosamente por um arquiteto francês, os lustres importados da China e até mesmo a grama trazida da Inglaterra - a mesma dos campos de golf. Primeiro mundo era li, tudo uma perfeição.
Uma banda de música animava os convivas. Bailarinas dançavam freneticamente no palco, enquanto todos se deliciavam com as ricas iguarias, uma maravilha de festa. Senador Otaviano parecia em estado de graça e resolveu fazer um discurso a seus convidados.
_ Meus caros amigos e companheiros de partido, caríssimos eleitores, senhores e senhoras... É com imensa satisfação que hoje festejo a inauguração desta minha nova residência, que deve ser a extensão das vossas casas. Não pensem que, por eu ter-me mudado para este bairro juntamente com minha família, eu esteja querendo distância de meus amigos de outrora. Quero, sim, dizer a todos vocês que as minhas portas continuam e continuarão abertas a todos que de mim precisarem, pois não sou daqueles que se mudam para fugir dos seus eleitores, não quero me distanciar do povo que me elegeu, quero apenas um pouco de segurança e de conforto.
Minha felicidade hoje é estar com vocês nessa confraternização, nesse momento ímpar para todos nós, que abraçamos a causa daqueles que mais precisam de apoio. Sou e sempre serei um homem simples e ligado às minhas bases. Meu mandato vos pertence, meus amigos, afinal é por vocês que estou e permaneço nessa luta árdua, nessa ida e vinda incansável para a capital federal.
Quero aqui destacar a compreensão da minha esposa e dos meus filhos queridos, que aceitam minha ausência e compreendem o distanciamento, pois sabem que tudo isso acontece por uma causa nobre: defender os direitos do povo que tanto sofre.
Quero destacar também o trabalho de um homem simples, de um profissional competente e dedicado que sempre esteve a meu lado; seu pai foi vaqueiro do meu pai e ele é como se fosse meu irmão. Esse homem trabalhou incansavelmente na construção dessa casa, colocou cada tijolo e alinhou cada cerâmica, cada azulejo dessas piscinas. Seus filhos trabalharam com ele, auxiliando-o. Um foi o ajudante de obra, o outro foi o encanador, outro o eletricista, outro foi o marceneiro e ele fez todos os acabamentos, afinal é o mais experiente. E eu fiz questão de assinar a carteira de todos eles, de pagar seus trabalhos em dia, para que eles tenham seus direitos garantidos...
Quero chamar aqui esse meu irmão, Mestre Isidoro e seus filhos, para que todos conheçam o exemplo de família unida. Família que trabalha unida cresce unida. - eles subiram ao palco. Uma salva de palmas para esse grande homem, esse exemplo de chefe de família. (tá eleito!..., já ganhou!..., Isso é que é um patrão!..., Isso é que é reconhecimento!...) Diga algumas palavras, Isidoro!...
_ Nada não, muito obrigado...
Enquanto isso, o operário caçula, pegou o microfone de seu pai.
_ Pois eu quero dizer que não estou nada feliz! Assinar a carteira é obrigação, pagar em dia também.  Se o senhor e seu pai, que também foi senador, tivesse trabalhado em binifício do povo, de dar educação pro povo, eu pudia ser até o arquiteto que projetou essa obra. Eu queria ser engenhero... Mas não, eu trabalhei, ganhei meu dinherim e agora, se eu quiser que procure outro serviço, de predero de novo!...
Senador Otaviano tomou-lhe o microfone e chamou os seguranças...
Mestre Isidoro saiu com uma lágrima reticente...



1 - (Luiz Egito de Souza Barros é Professor, escritor, poeta, membro da União Picoense de Escritores - UPE)

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