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Postado em: 11/11/2015 12:15:41 - Por: Nonato Fontes - Visitas: 1358

O Mal da Classe Média

João passou a frequentar os lugares mais sofisticados da cidade...

Na volta para casa João já se imaginava pai, vendo seus filhos em bom colégio, sua família bem estruturada, ia sorrindo com o vento.

O Mal da Classe Média

João era um cidadão pacato, morava em uma localidade nas proximidades da cidade de Picos, desenvolvia seu trabalho como todo bom rapaz, a roça nas épocas das chuvas e, quando não, aproveitava para fazer vassouras de palha de carnaúba e vender nos finais de semana na feira da cidade.

 

Seu negócio não era dos melhores para quem almejava um dia construir família e tirar o sustento doméstico e também para a educação dos filhos, por isso, vez em quando consultava amigos na feira de Picos para saber se montava qualquer coisa que melhorasse de vida. Indagava sobre produtos que tinham boa aceitação e consequentemente geravam bons negócios. Como tinha em sua companhia amigos de confiança, logo recebeu uma proposta de um destes: Tinha vontade de buscar outros rumos, alugaria um ponto já bastante conhecido que era de sua propriedade, mesmo este lhe rendendo bons lucros. Isso encheu João de esperanças.

 

Na volta para casa João já se imaginava pai, vendo seus filhos em bom colégio, sua família bem estruturada, ia sorrindo com o vento. Porém João não sabia como ia conseguir montar seu negócio sem o capital inicial, do seu cabedal não queria se desfazer, manteria para um caso de emergência. Outro amigo lhe anunciara uma opção de crédito disponibilizado pelo governo federal para pequenos e médios empresários, como João não tinha nenhum crédito, pois não era comerciante, este lhe emprestou o nome para o investimento. Foi à primeira guinada de João rumo ao sucesso.

 

Seu negócio novo ia de vento em polpa, vendia produtos de todas as espécies desde chinelos, pimenta, alho, rapadura, utensílios domésticos e até exportava alguns, como por exemplo, sua velha produção de vassouras, que agora se tornara objeto mais qualificado e vendido em toda a macrorregião de Picos. Viajava em seu próprio veículo para compras e também vendas dos seus produtos, adquirira com os lucros obtidos na Mercearia o João de Deus, não era seu sobrenome, mas como bom católico, aproveitou o nome santo.

 

João casou-se no dia de seu santo padroeiro: São João. Conhecera Isabel numa de suas viagens à cidade de Bom Jesus, namoraram pouco tempo, o suficiente para que João a trouxesse para a residência que tinha acabado de adquirir no centro da cidade: Área nobre. Junto com Belinha, como carinhosamente a chamava, gerou três filhos: Inácio, hoje estudante de direito; Isabel, que ganhara o nome da Avó materna e Celina, filha mais nova, as duas ainda cursando o ensino médio em um colégio particular.

 

João passou a frequentar os lugares mais sofisticados da cidade, gostava de ver seus filhos metidos em rodas de gente de melhor poder aquisitivo, mudara sua maneira de viver. Já não visitava seus parentes e amigos como antes, quase todos os finais de semana, agora sua turma era outra, se deixara levar pelos novos amigos, até criticava a maneira de viver dos antigos companheiros. Ganhara o apelido de farofeiro, pois depois que seu comércio expandiu-se e passou a gerar mais lucros, gostava de arrotar vantagens para todos, dizia ter alcançado sucesso com méritos próprios e não precisava de governo e nem de ninguém para manter o Atacadista João e Filhos, o comércio havia crescido e necessitava de um nome mais forte. Retrucava com veemência quando alguém lembrava a ele como tudo começou. Foi à grande guinada de João rumo à derrota.

 

Com o crescimento rápido do comércio, e sem ter conhecimento de administração, muito menos confiar em outros, foi que o Atacadista João e Filhos começou a passar dificuldades. Com a expansão dos negócios, João aproveitou a facilidade de créditos a juros baixos e entrou até onde não podia na ganância de crescer mais e mais. Os lucros, não eram poucos, porém as despesas eram absurdas, na cavalgada de João em seu propósito de manter as amizades de cima, bancava festas e festas em seu nome e dos filhos, convidava pessoas da mais alta sociedade e lhe dava o que de melhor podia, sem contar os melhores colégios e universidades que arranjara para os filhos. Assim, os gastos exorbitantes ultrapassavam os ativos do comércio e João se viu na iminência da falência.

 

O banco teve de tomar boa parte do que possuía, pois não cumprira o acordo de crédito oferecido. Seus filhos passaram a frequentar colégios públicos e João não recebia mais convite de festas chiques, como antes. Para João, o único culpado disso tudo era o governo. Não sabia que por méritos próprios ele conseguiu falir, apesar dos antigos amigos terem lhe colocado na mira do sucesso. Mas João cuspiu no próprio prato e com o olho grande se afastou deles. Os novos amigos, que ele pensara ser mais proveitoso, o colocaram em falência. João sentiu o gosto pela classe média bem antes de possuir a patente, como muitos outros que andam a vociferar discurso de ódio contra tudo e contra todos aqueles que cheiram a pobreza.

 

Se um dia João adquirir a consciência que tinha quando era apenas um plantador de milho e, nas épocas de verão, confeccionador de vassouras, talvez recupere um pouco de sua dignidade. Mas por enquanto, João apenas fala mal de tudo quanto é de políticos, em especial o governo que lhe abrira, mesmo que a juros baixos, uma linha de créditos para que ele sentisse o sabor do sucesso. Por enquanto, João continua em sua derrocada, buscando a todo custo vender riqueza onde há miséria, tanto financeira quanto moral, tudo para manter aquilo que mais lhe é prejudicial: Os amigos elitistas, que jamais aceitaram aquele sucesso que João alcançara.

 

 

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