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Boa tarde! Segunda-feira 20 de Agosto de 2018  -   Passagem das Pedras, Picos - Piauí

Postado em: 17/08/2015 - Por: Mundica Fontes - Visitas: 3647

Peça de Teatro: Vida Gemida em Sambambaia

Sambambaia é um lugarejo perto de Picos no Piauí. O ano é o de 1932.

Vida gemida em sambambaia, adaptada do romance de Fontes Ibiapina, ganhou o 1º prêmio no 7º Concurso Nacional do Clube do Livre (1985).

Peça de Teatro: Vida Gemida em Sambambaia

Narrador: Sambambaia é um lugarejo perto de Picos no Piauí. O ano é o de 1932. A seca é fortíssima, provocando a morte do gado e até das pessoas. Alonso, peão de um fazendeiro começa a matar às escondidas bodes pertencentes a várias pessoas para alimentar seus filhos que estavam morrendo de fome.

Esse é o início de Vida Gemida em Sambambaia. Nessa expressão literária através de uma linguagem fluente, palpitante e de forte colorido regional, temos um painel da vida, das crenças, das alegrias (poucas) e dos sofrimentos (muitos) dos fortes sertanejos que habitam essa região, mas que representam um amplo seguimento do povo brasileiro.

Seu autor Fontes Ibiapina é um piauiense realmente apaixonado pela sua terra e pelos que a habitam. Essa obra é um dos frutos dessa paixão, conquistou o 1o prêmio no 7o Concurso Nacional do Livro em 1985, contagiando os jurados que o escolheram como o melhor entre mais de cem outros originais.

 

 

 

 

Fundo musical: "Quando a lama virou pedra e mandacaru secou"

(Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira)

 

 

 

Narração : Dia 14 de dezembro a matutada samambaiense amanheceu de crista caída. A experiência das pedras de sal que lhes trouxera um recado fúnebre.

As pedras de sal postas ao sereno durante a noite amanheceram secas que nem língua de papagaio. Muitos já o sabiam porque a chuva dos cajus não viera. E, quando as chuvas dos cajus não assinam o ponto, pode se tirar o cabelo da venta - não vai haver bom inverno. E Santa Luzia jamais mentiu para aquela gente... Sinal de tristeza, que naquelas caatingas não pode mesmo haver outra coisa tão grande em misérias quanto um ano de seca...

 

 

CENA I

 

Cenário (Paisagem seca, sol quente, um casebre, um velho triste de chapéu de palha fumando cachimbo e riscando o chão).

 

Velho : Diacho! Nem sinal de inverno. O céu amanheceu mais limpo que o coração de Maria. As pedrinhas de sal postas no sereno dia de santa Luzia (13/12) nem molharam. É seca mesmo! Este sol está mostrando o sinal da guerra - A seca - a guerra da fome. (continua a rabiscar o chão pensativo)

 

Caboclo : Bom dia pai velho Tem algum sinal de chuva aí nas suas experiências?!

 

Velho : Nada meu filho. Galinhas não se espojaram, nem porcos arrastaram palha. O xiquexique não florou de modo algum. A peitica tá danada cantando...  É mais fácil um boi voar ou um político falar a verdade do que haver inverno neste ano.

 

Caboclo : Triste notícia, pai velho. Essa é uma notícia dura de doer na alma. Inté!  (sai)

 

(Música de Luís Gonzaga)

 

 Uma mulher passa apressada com São José enrolado debaixo do braço.

 

Velho : Mais uma que rouba santo pra ver se chove... Mas o nosso Piauí vai mesmo pegar fogo de uma vez. Dona miséria encarapitada no cavalo da fome está batendo palma e gargalhando, enquanto nós aqui dessas quebradas estamos a morrer de fome!... Valei-me meu Senhor Jesus Cristo!

 

Caboclo : (indo embora) Inté!

 

Velho :  (acena com a mão) Vão meus fios, vão vocês pra outras bandas. Eu cá vou ficar, meus 90 janeiros não dá mais pra fugir da seca não. Agora só me resta mesmo escolher os meus sete palmos de chão.

 

Caboclo (retirante) :  Adeus pai velho, peça a Deus pro nós, tamos indo pro Maranhão, mas um dia vamos voltar pra nossa sambambaia.

 

Velho : Vão em paz meus filhos. (Faz comentários) É, começou a tragédia da seca, o caminho da fome. É esses que vão, outros que também vêm de longe, buscando pingo-de-chuva em nosso sertão.

Muita gente tá se arribando pro Maranhão, pra onde Deus jamais se esqueceu de abrir as torneiras do inverno.

Muitos vão ser tragados pela boca escancarada do maldito e infeliz impaludismo do Mearim.

 

Alonso : (Chegando e apontando para os retirantes) Eles tão se indo embora... Mas eu posso é morrer de fome, mas daqui num saio, nem qui a vaca tussa! Ninguém me tira, nem mesmo a seca! Pode ser que o gado de seu Zacarias morra. Eu sou o vaqueiro dele e vou tomar conta direitinho do seu gado. Num é uma seca braba dessa Qui vai me ispantá. Pode inté o próprio diabo num aguentar esta seca, mas eu vou guentar, garanto qui vou! (Afasta-se um pouco)

 

Velho : É, Alonso é um produto danado de rígido dessas caatingas. Rígido como a própria região, como a própria terra, rígido como as secas. Ele acredita que Picos é a melhor e maior cidade do mundo e que, aqui ele pode sobreviver...

 

Alonso :  É, o senhor tá certo. Eu vou viver mesmo de fé e de milagre, apois, quem em Deus tem fé num morre de fome. Os poderes de Deus são maiores que os poderes da seca; maiores até mesmo que os poderes dos homens grandes que se julgam donos do mundo. (Olha pra cima) Juro, que de fome não morrerei, nem eu nem a velha, nem meus mininos. (Sacode o chapéu e sai)

 

CENA II

Cenário (Um casebre, o mesmo, - Uma mulher de cócoras e três crianças).

 

Alonso :  (Monólogo) (Chegando devagarinho com um embrulho nas mãos) Meu Deus, eu tenho muitos defeitos, vóis sabeis que sim. Mas roubar nunca foi o meu feitio... Também Senhor, vós empurra um seca braba na gente, cuma vou deixar minha mulher e meus filhos morrer de fome? Vós haveis de me perdoar. Além do mais as tripas roncando, roncando, eu só matutando, olhando pras roças, tudo seco de fazer dó... Só essa mata cinzenta diante da gente...

De repente o bodinho passou na minha frente. Parti meu coração Senhor, me perdoa, foi o jeito, né?!  (Entra no casebre)

 

Alonso : Ô Maria do Céu, vem ver o que que eu trouxe!

 

Maria do Céu : Carne? Comida? (Exclama) Alonso, tu foi capaz de matar o bode alheio? Apois eu sei que tu não tem um animal desse!

 

Alonso : Como é Qui tu ainda tem fôlego pra me perguntar? Bota logo o bicho no fogo, mulé, vamo matar essa fome que tá nos matando! (olhando pros filhos) Vêm cá meus moleques. Num é pra ninguém saber que tamo cumendo carne. Ë pecado mortal o povo saber que este ou aquele pobre tá comendo carne em tempo de seca. O que bater com o badalo tomará por conta uma pola das boas, e tão grande de num ver o começo nem o fim. (Os meninos consentem com a cabeça)

 

Maria do Céu : Alonso, o que tu fez do couro do bode? Óia que vai ser descoberto e tu vai parar na cadeia...

 

Alonso : E eu sou algum besta por acaso? Tu não viu os temperos que eu trouxe não, mulher? Como tu acha que eu achei eles?!

 

Maria do Céu :  Não entendi.

 

Alonso :  Num entendeu por que tu é burra! Eu vendi o couro lá na cidade e o resto é isso aí.

 

Maria do Céu : Alonso, não roube mais pelo amor de Nossa Senhora.

 

Alonso : Não é pelo amor de Nossa Senhora, que ela não precisa disto. Eu roubo é pelo amor que tenho aos nossos filhos...

Agora deixa de especular, mulé! Vá cozinhar o "bicho" Qui é mió e faça um pirão pra nós nos refestelá.

 

(Do lado de fora, senta-se, faz um cigarro de palha).

 

É, enquanto Maria faz o pirão, vou pitá meu cigarrinho, única diversão que o pobre ainda tem... E eu num sei nem inté quando... A seca tá braba!

 

(Olhando para o céu de mãos juntas)

 

Eu prometo, Senhor, que quando um dia feliz a maldita desta seca tiver o seu fim, eu, Alonso, vou deixar de pegar no alheio. Eu só roubo porque a necessidade me obriga. E também senhor, eu acho que roubar num é pecado, quando se rouba pra não morrer de fome. E mesmo Senhor, esse bodinho fracatiado aí, era de Matias das Barreiras. Aquele sim! Safadão de marca maior; furta o sol antes de nascer! E é pra bem dizer-rico! Eu vou até fazer tudo pra só pegar bode dele... Num fica nem sendo roubo, porque é como se eu roubasse o que ele roubou dos outros. Diz o velho ditado: ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão!

Avia Maria, traz o pirão pra eu mostrar pra essa ispritada que ela num é mais forte do que Alonso da Sambambaia. (Maria entrga-lhe o pirão).

 

Alonso : Ah! Gostosura de vida... Esse sim, dá sustança!

 

CAI O PANO

 

 

CENA II

 

 

Cenário : (Só mato seco, moitas. Lua cheia.) (Alonso numa moita esfolando um bode. Tudo silêncio. Só cantiga de grilo. Chico Capoeira aproxima-se devagarinho pé ante pé).

 

Chico Capoeira :  Peguei!

 

Alonso :  (toma o maior susto e a peixeira cai da mão. Gagueja.) Chico Capoeira? Meu cumpadre!!

 

Chico Capoeira :  Eu mesmo, em carne e osso!

 

Alonso :  (Disfarçando) Como  é que tu chega assim me dando um susto desse jeito?

 

Chico Capoeira :  Você! Hem seu moço! Bem que eu tava desconfiado... Vou agorinha contar pro teu patrão.

 

Alonso : Não compadre Chico, num faça isso. É a necessidade qui me obriga... Desgraçado o homem que deixa a mulher e os filhos morrer de fome pelo simples capricho de num pegar no que é alheio. Será qui Deus num vai me castigar um dia se eu deixar

Mulher e filhos morrerem de fome?

 

Chico Capoeira : Eu também tenho mulher e filhos, mas Deus me livre de pegar no que é

Alheio. Nossa Senhora do Desterro me defenda dessa maldita hora!

 

Alonso : Deixa de besteira cumpadre! O mundo é dos mais espertos. Além do mais a dor é qui ensina a gente gemer.

 

Chico Capoeira : Num tem conversa não, cumpadre, eu sou um homem honesto, vou descobrir tudo pro patrão e toda a Sambambaia vai saber o qui você anda fazendo de noite por trás das moitas... Tenho inté vergonha de ser seu cumpadre agora...

 

Alonso : (Apelando) Cumpadre, eu lhe peço até pelo amor de Deus qui num faça isto. Bem sabe você que tenho uma récua de filhos pra criar. Tenha pena de mim! Até seu afilhado Zequinha vai morrer de fome se você fizer isso.

 

Chico Capoeira : Eu também tenho uma récua de filhos pra criar, mas num ando pur aí matando os cabritos alheios...

 

Alonso :  (Apelando) Cumpadre, honestidade enche barriga? Mata a fome? Será que minha cumadre e a cambada de seus filhos vão escapar dessa seca, só por qui você é honesto? Pensa bem cumpadre, eu reparto esse bicho com você...

 

Chico Capoeira : Não! Nada feito...

 

Alonso : Então cumpadre, tu vai deixar teus filhos dormir de barriga pregada no ispinhaço sonhando decerto cum alguidá de pirão, só prumode esta besteira de honestidade?

 

Chico Capoeira : (Coçando a cabeça) ë lá em casa desde ontonte qui as trempes tem discanso, nem preá num si incontra mais pra gente comer...

 

Alosno :  Pois então cumpadre? Vamo logo repartir o bicho!

 

Chico Capoeira : Pera aí... Sessenta janeiros nos couros tenho nesta terra e nunca me vi em apuros, em negócios feios...

 

Alonso : (Insistindo) Ah! Pois então cumpadre me deixe de mão e vá levar sua consciência pra cumadre cozinhar prumode matar a fome de teus filhos, que eu vou é levar esse cabrito antes que apodreça...

 

Chico Capoeira : Pera aí!... Tá bom. Aceito sua proposta. Mas lhe peço por toda corte do Céu que guarde segredo.

 

(Os dois se acocoram e vão repartir o cabrito. Depois cada um sai prum lado).

 

Chico Capoeira : Inté cumpadre! Guarde segredo. Eu continuo honesto, só que pra num morrer de fome eu aceitei essa proposta.

 

Alonso : Tá certo cumpadre! Inté. (todo satisfeito)

                É mais um pai de família qui a seca num vai enterrá. Se eu fosse um ricaço num teria feito esse negócio de repartir o "pão". Mas como sou bom cristão, salvei um pai de família com a raça toda!

 

CAI O PANO

 

CENA III

 

Cenário (Casa de fazenda. Fazendeiros reunidos).

 

Fazendeiro 1 : (Andando de um lado para o outro) Cumpadre, chamei você aqui, pra ver se unindo nossas forças, a gente desvenda esse mistério de desaparecimento de caprinos e ovinos. Todo-santo-dia desaparece criações. Cachorro bodeiro num é possível, que se fosse o cangaço da criação ficava no meio do tempo e logo se descobria. Só pode ser mesmo ladrão.

 

Fazendeiro 2 :  Ladrão? Sambambaia é lugar de homens pobres, mas homens de vergonha. Não! Não é possível que seja ladrão! Ë a seca que tá acabando com tudo...

 

Fazendeiro 1 :  É ladrão sim. Já tirei minhas deduções. A seca arrasa tudo, mas a questão é que bode é animal mais duro pra seca, porque só não come pedra... O resto ele passa nos peitos. Além de tudo, as criações que estão desaparecendo são justamente as mais chancudas.

 

Fazendeiro 2 : Mas será possível que tem ladrão soltos por essas bandas? Só sendo de fora, porque de Sambambaia, eu meto minha mão no fogo. Não tem ladrão , não!

 

Fazendeiro 1 : Eu já mandei chamar meu cabra de confiança. Você conhece o Alonso, ali sim, é homem de peso e medida. Trabalha pra mim há muitos anos.  É o homem de confiança da minha fazenda, inté ouro posso deixar nas suas mãos...

 

Fazendeiro 2 : Alonso? Conheço sim. Êta homem de fibra. Outro dia me encontrei com ele, tá rosado, esperto. Quisera eu Ter um peão destes em minha fazenda. Você é homem de sorte!

 

Fazendeiro 1: Graças a Deus! Alonso tem mulher e filhos e tem escapado dessa seca porque eu permito que ele tire uma parte da macambira do gado e leve pra eles comerem. Mas se eu não permitisse, garanto que eles morreriam de fome, mas Alonso não tirava uma macambira sequer sem minha permissão.

 

(Ouve passos. Alonso chega todo acanhado. Tira o chapéu).

 

Alonso :  Bom dia meu patrão!

 

Fazendeiros :  Bom dia cidadão!

 

Alonso : Estou às ordens patrão!

 

Fazendeiro 1 : Eu mandei lhe chamar meu rapaz, porque tá havendo um grande mistério nessas bandas.

 

Alonso :  (Surpreso) Mistério? (Fazendo cara de espanto)

 

Fazendeiro 1:  Sim. Um mistério, coisa muito esquisita... Tá desaparecendo criações de minha fazenda e na dele também todo santo-dia.

 

Alonso :  Ah! É! (Desconfiado)

 

Fazendeiro 1: Eu mandei lhe chamar (Alonso se assusta) porque você vive queimando macambira por esses cafundós, remexe essas bibocas todas, veja se me descobre o safado desse tal ladrão, que eu quero mostrar pra ele o quanto custa se pegar no alheio sem o consentimento do dono.

 

Alonso :  (Se prontifica) Eu tenho muito mais ódio de ladrão, seu  Zacarias, do que o Capeta das profundas tem da cruz. Eu nunca mais serei homem nessa terra, se não encontrar esse safado. Juro pro senhor!

 

Fazendeiro 1 : Pois eu lhe pago, Alonso. Pago lhe bem pago. Dou um prato de feijão e duas rapaduras.

 

Fazendeiro 2 :  Eu reforço o pagamento do Zacarias! Descubra esse covarde e nós lhe recompensaremos.

 

Alonso : Tenho raiva de ladrão. Falo com franqueza. Falo sério. Falo rosado como o senhor sabe. O tempo tá de fumaça. Mas tenho fé naquele pai que tá lá em cima, como nunca baixarei minhas mãos no alheio. Se um dia a necessidade me obrigar, posso é pedir, mas não roubo. É pra Deus e não pro Diabo que tenho minha alma.

 

Fazendeiro 2 :  Muito bem, meu rapaz! Por isso confiamos em você!

 

Fazendeiro 1 :  Voltemos à vaca-fria. Como vai o gado do trato?

 

 

Alonso : Cada vez pior. Uma coisa triste. Na marcha que vai, pelo que se vê, vai terminar não ficando uma cabeça pra semente. Se é que existe inferno mesmo seu Zacarias, deve ser uma coisa muito parecida com uma seca grande.

 

Fazendeiro 1 :  Já morreu alguma rês depois que andei por lá?

 

Alonso :  Ora se... A vaca preta, a sirigada e a caretinha já bateram o corredor.

 

Fazendeiro 1 :  Tudo isto!?

 

Alonso :  Tudo. E já caindo a Mulata, a Oncinha e o Rio Grande.

 

Fazendeiro 1 :  E você tem cuidado?

 

Alonso : De mais! A questão é que com esta seca maldita não há quem possa. Meus ombros já estão pelados, só de lombar mandacaru e jacá de macambira. Vivo me acabando numa luta danada. Minha labuta é de doido!

De dia procurando ração na chapada; de noite, com a velha e os meninos levantando gado magro.

Vejo o sol entrar num lado do mundo e sair do outro. Como o senhor sabe. Se a gente deixar uma rês magra passar caída a noite toda, amanhece isquicida das mãos e ... Adeus rosa!...

 

Fazendeiro 1 :  Pois tenha cuidado. No final das contas, você há de ficar satisfeito comigo.

 

Fazendeiro 2 :  Não perca a esperança Alonso, que Deus é grande. Os que se vão pro Maranhão pensam que se benzem e quebram as ventas! Eu conheço aquela joça como a palma de minhas mãos. Ou morrem socados naquelas matas como bicho qualquer, ou voltam miseravelmente cheios até a tampa do maldito impaludismo das margens do Mearim.

 

Fazendeiro 1 : É mesmo compadre! Aqui é que  é a melhor terra do mundo pra gente pobre viver! Tenha fé em Deus Alonso que ainda vai chover. Agosto já tá se acabando e setembro das chuvas dos cajus vem aí.

 

Alonso : Chuvinha dos cajus, seu Zacarias, não enchem barriga de ninguém, nem no ano bom de inverno.

 

Fazendeiro 1 :  Não enchem, mas dão esperança. Mais vale uma esperança tarde do que um desengano cedo.

 

Alonso :  Se esperança sustentasse a gente, eu já tava roliço de gordo. Não só eu como todo mundo de Sambambaia.

 

Fazendeiro 2 :  (Sorrindo) ë, só nos resta esperar. Pode ser que com as chuvas dos cajus, o mameleiro enrame e salve o gado do flagelo.

 

Alonso : Ah! Se assim fosse, seria pra lá de bom. Com a mata vestida de verde, a gente fica livre do flagelo do gado.

 

Fazendeiro 1 :  Não tenha medo. Uma coisa eu lhe garanto; de fome você não morre enquanto eu for vivo. Ainda tenho mornando um paiol de milho, outro de arroz; feijão e farinha nos caixões. Quando o negócio apertar mais, vou lhe fornecendo e tomando nota. Um dia feliz, quando o tempo melhorar, você me paga tudo em serviços. E não se assuste, que meus juros são pequenos.

 

Alonso :  Eu já me vou, seu Zacarias.

 

Fazendeiro 1:  É cedo! Vamos dar mais um dedo de prosa que a lua está clara. Ou você tem medo de alma?

 

Alonso :  Que alma que nada!... Alma somos nós mesmos, os pobres lavradores num ano de seca como este... Boa noite vasmicês!

 

Fazendeiros : Boa noite!!

 

CAI O PANO

 

ATO  II        

CENA I

 

Cenário - (Casebre de Alonso. O mesmo anda de um lado para o outro).

 

Alonso :  (Monólogo) Tô pra ficar doido. Chico Capoeira tem os zóios maió qui a barriga, não se conforma só com um bode por semana. Prumode sua chantagem tô quebrano o cachaço de três bodes por semana.

Vô ser descoberto. Num tem jeito os fazendeiros tão desconfiados demais. Pra todo canto que se vai é só a conversa: (Ironiza)... Êta, se esse cabra ladrão for descoberto vai levar chumbo no ispinhaço. Inté parece que já sinto os tiros nas costelas e as costelas nos tiros. E se eu for preso quem tomará conta dos meus filhos? Da mulher é bem capaz que algum cumpadre queira (ela ainda se aproveita), mas meus fiinhos que Deus me deu. Qui será deles?

 

Maria do Céu : Ô Alonso, deixa de tá falando sozinho! Inté parece doido... Vai catar macambira e mandacaru qui é muito mais mió.

 

Alonso : Qui macambira muié, eu num sou de ferro não. Hoje é Sábado e eu vou é vender os couros na feira.

 

Maria do Céu :  Tenha cuidado homem. Esse negócio vai ser descoberto. Ainda mais que tu tem mania de beber cachaça e conversar besteira...

 

Alonso :  Ah! Besteira é tu muié ficar pensando no pió. Além do mais, um bicado de cana faz a gente esquecer um bocadim essa seca ispritada.

 

 

Maria do Céu :  Mas num enche barriga. E tu sabe que todo pobre numa época dessa tem a barriga danada de grande!...

 

Alonso :  Oh! Maria do Céu, num enche minha paciência, eu sei o qui vou fazer. (Pega o embrulho de couro).

 

Maria do Céu :  Hum! Eu sei o que tu sabe fazer muito bem. É safadeza! Toda feira que tu vai nos Picos, na volta tu se incontra com a quenga da Maria Sipaúba.

 

Alonso :  Oh! Maria do Céu, numa seca braba dessa e tu ainda bota ciúme pra cima deste pobre rebutaio de seca!

 

Maria do Céu : É rebutaio de seca, sim! Mas é dos mais safado que existe. Pois óia, tu pode ir, mas fica sabendo que meus olhos vão nos teus bolsos. Se fizer safadeza, eu sei; eu enxergo tudo!

Alonso :  Ah! Deixe-me ir, a feira me espera...

 

Maria do Céu : Vá mas volte cedo e olhe lá...   Inté! (Alonso sai e a mulher entra)

 

CAI O PANO

 

CENA II

 

Cenário: (Dois soldados e o delegado. Os soldados entram com Alonso).

 

Soldado : Eis aqui o safado que roubava os bodes da fazenda Sambambaia. Peguei mesmo na horinha que o discarado tava vendendo as peles pra beber de cachaça.

 

Alonso : Alto lá! Beber cachaça não! Eu ia comprar mantimentos prumode meus filhos não morrerem de fome!

 

Delegado : Cale-se! Seu Alonso, quem diria, O homem honesto de toda confiança do Sr. Matias das Barreiras e ... Matando os bodinhos dele escondido, heim? Quem diria! Quem diria! Belo serviço soldado. Você vai receber uma boa recompensa, porque os fazendeiros desta região estão doidos pra descobrir este misterioso ladrão que não deixa nem rastro. Belo trabalho soldado! (Soldado fica todo orgulhoso)

 

Delegado :  Então era você seu cabra sonso, que surrupiava as criações alheias, heim? Agora você vai saber o que é que se faz com ladrão da sua marca. (Range os dentes)

 

Alonso : Seu delegado tenha dó de mim. Eu não fiz por mal, eu só num queria ver meus fios morrer de fome. Só isso...

 

Delegado : Dó coisa nenhuma. Você vai entrar é na chibata seu ladrão safado!

 

Alonso : Espera aí seu delegado. Mas eu não roubei sozinho não. O velho Chico Capoeira é mais antigo do que eu neste ofício. Nós roubava juntos.

 

Delegado : Ah! É, o velho Chico Capoeira. Não acredito! Soldado vai atrás de Chico Capoeira e o traga aqui; tenho quase certeza de que ele não tem nada a ver com isto. (Soldado sai) (Soldado entra trazendo Chico Capoeira)

 

Chico Capoeira : (Assustado) Mandou me chamar eu delegado?

 

Delegado : Sim. Tem uma acusação sobre você. (Vira-se para Alonso). Este ladrão safado disse que você é comparsa dele no furto. É verdade ou não?!

 

Chico Capoeira : Cumpadre Alonso!? Eu nem sabia que você tava metido nisto. Eu sempre lhe tive como homem de caráter.

 

Alonso : E caráter eu tenho cumpadre. Só que caráter não enche bucho não. E você sabe muito bem disto. E foi você que me obrigou a matar mais bode do que devia.

 

Chico Capoeira : (bem cínico) Cumpadre, não me levante um falso deste! Olha seu delegado, eu nasci e me criei nesta terra. Já tenho 60 janeiros e nunca cruzei os pés no batente da delegacia. Todo mundo me conhece e me respeita. Este meu cumpadre tá doido!

 

Alonso : Delegado pode acreditar como esse homem pegava bode comigo todas as semanas.

 

Delegado : Já estou acostumado com essas balelas de cabra sem vergonha da sua marca. Todo ladrão é mentiroso e nunca quer ser ladrão só.

 

Alonso : Mas, ele roubava junto comigo!

 

Delegado : Não adianta, o ladrão é aquele que se pega com o furto nas mãos. As peles estão aqui de prova. Agora, seu Chico, vá se embora e me desculpe; eu só mandei lhe chamar porque eu queria ver até onde chegava este ladrão mentiroso (Com o dedo apontando para a cara de Alonso). Você ainda tem a cara lavada de dizer que não roubou os cabritos de seu patrão?

 

Alonso : Apois, eu roubei; roubei sim e roubo tantas vezes precise pra não deixar meus filhos pequenos morrerem de fome. São três (faz nos dedos) - E não dou um deles por bode e nem pelo senhor!

 

Delegado : Mas é muito desaforo! Soldados levem este safado pra cela e botem ele no três!

 

Alonso : O quê!!! Eu ser trancado no três?! Onde num se pode ver a luz do sol? Apois, eu não vou mesmo!... (tenta fugir... os soldados seguram-no).

 

Delegado : Soldados, preparem um relho bem grosso e um cristé de pimenta malagueta que eu vou mostrar pra esse vagabundo o melhor remédio pra ladrão de bode.

 

Alonso : Öia aqui seu delegado, eu num sou homem de tomar cristé de pimenta não! E se isso acontecer, por aqui não vai escapar um de vocês!

 

Delegado : Cale a boca cretino!

 

Alonso : Cretino é o senhor que não sabe perdoar um pai que por amor aos três filhos se tornar um ladrão.

 

Delegado : Mas é muita petulância deste ladrãozinho safado!

 

Alonso : Safado é o senhor que vive sentado aí só recebendo dinheiro do governo e botando um pobre pai de família nas grades.

 

Delegado : (irritado) Mas, ora, ora, ainda quer ter razão esse moleque! Ande logo soldado com este relho, que eu vou aprumar este ladrão de bode!

 

Alonso : Pois pode bater inté sangrar, seu delegado... Mas pode ficar na certeza como se o senhor fizer comigo tudo isto, vai mudar de nome e de terra também. Fique certo disto: Eu vou ser o primeiro macho a tirar a vida dum delegado dentro da delegacia dos Picos, estado do Piauí, Brasil!

 

Delegado : (Admirado e irônico) Este homem só estando doido! A seca deve Ter cozinhado os miolos dele. Quem já se viu desfeitear uma autoridade deste jeito??? Vocês não acham soldados, que este homem tá doido? (Os soldados confirmam com a cabeça).

 

Alonso : (Gritando como um louco) Roubei, roubei sim, pra matar a fome de

meus filhos; não sou covarde como Chico Capoeira que furtava comigo e negou tudo. Roubei, roubei os bodes, sim!

 

Delegado : Levem logo este cretino, antes que me falte a paciência! (soldados saem empurrando Alonso que continua gritando)

 

CAI O PANO

(em casa Maria do Céu se lamentando)

 

Maria do céu: Seu pai está sofrendo na cadeia, meus filhos. Foi preso ontem na feira. Preso só porque não quis que vocês morressem de fome. A estas horas, sofre nas alçadas do delegado, que nem pinto em unha de gavião. E o mundo está cheio de pintos. Cheio de gaviões também. Gaviões-de-fumaça, caipira, real, pé-de-serra, Gavião-tesoura, de penacho, gavião-pomba, gavião-quiriquiri. Nós pobres somos pintos. Os ricos são os gaviões. Gaviões de todo tamanho e de toda espécie e qualidade. E o reino do outro mundo pode ser que seja também dos pequenos. Mas o reino deste mundo velho aqui é apenas dos grandes.

 

CAI O PANO

 

Narração : E assim, Alonso terminou indo para o quarto três, porque não quis que três crianças morressem de fome.

No dia seguinte, quebrou o jejum com uma faxina grossa; varreu a cadeia e botou água nos potes das principais autoridades. Numa das vezes que subia a ribanceira do rio, deu um chute numa pedra e caiu derramando a água das latas. Tomou um banho sem querer, com roupas e tudo. O soldado que o escoltava batizou logo seu espinhaço com três porradas de sabre, dizendo que era pra esquentar o frio. Então Alonso sentiu que as pancadas foram três porque ele procurava salvar três crianças condenadas à morte no porão da seca.

 

(hora da soltura)

 

(Os soldados trazem Alonso até o delegado)

 

Soldado :  Tá aqui o homem seu delegado. Acho que ele ficou mais doido do que estava. O trabalho que tá nos dando, é um Deus nos acuda!

 

Delegado : É acho que a boa relhada que recebeu foi um bom remédio pra aprender a não roubar os bodes alheios. E como a seca cozinhou seus miolos, o jeito é lhe dar soltura, porque cadeia não é meduno. Mas, mesmo assim, eu lhe digo: vá direto pra sua casa e se é que tem tanto amor aos seus filhos, pegue seus cacarecos e suma-se de uma vez desta terra!

 

Alonso : vou sim, mas antes, devolva os couros de bode que o senhor me tomou.

 

Delegado : Devolver coisa nenhuma, seu moleque! Você não tem direito a eles.

 

Alonso : Tenho direito, sim, porque paguei muito caro por eles, trancafiado nesse inferno! Me dá meus couros, seu delegado!

 

Delegado : O que eu posso lhe dar é uma outra relhada, pra você deixar de ser atrevido.

 

Alonso : Não vai devolver, não? Apois o senhor agora é ladrão também!

 

Delegado : (Põe a mão no peito e passa mal) Pelo amor de Deus, soldados, tirem esse traste daqui...  (Os soldados dão soltura a Alonso que sai gritando)

 

Alonso : Ora, vejam, mais um ladrão de couro de bode!

 

CAI O PANO

 

CENA FINAL

 

(Alonso caminhando, cabisbaixo... Olha desolado ao seu redor e só vê "cruz" no caminho).

 

Alonso : Será que o meu destino é este no caminho da morte? Morrer, como o coitado do "pai velho", que Deus o tenha. Morreu com os olhos pregados no céu, esperando as nuvens dar um sinal de chuva... Morrer? Morrer como minha cachorra "mandinga" qui ficou só o couro e o osso e inté nos últimos instantes, muito me ajudou nas caçadas dos tatus e até pegou bode também. Tão aí enterrados nesse cemiterão que é essa caatinga braba. Mas, eu? Ficar aqui em Sambambaia, depois qui fui desmoralizado? E além do mais não tem mais nem bode, nem calango e nem macambira pra se comer! Eu vou é pro sul, o lugar qui  DEUS abençoou com chuvas.

 

 

ÚLTIMO ATO

 

Cenário : (Casebre de Alonso).

 

Alonso :  (Grita de longe) Maria do Céu! Maria do Céu! Vá arrumando os caixotes porque nós vamos simbora daqui!

 

Maria do Céu : (Aparecendo na porta) Pra onde que vamos assim, nessa pressa toda, homem de Deus?! Se a gente nasceu aqui, é porque é aqui mesmo qui a gente deve morrer.

 

Alonso : Vamos pra uma terra onde não haja seca nem se morra de fome...

 

Maria do Céu : Pra gente preguiçoso na sua marca, não há lugar que preste. Se fosse esperto, eu nada diria. Mas, preguiçoso, banzeiro como você é... Pode ir. Eu fico!

 

Alonso : Então fique! Eu vou pra uma terra onde trabalho tem valor. Vou pra uma terra onde não me veja nesta desgraça. Desprezado da sorte, perseguido pelos homens e até desprezado por Deus...

Toda desgraça nossa é a miséria destes homens que mandam e desmandam e só enxergam a gente pra cobrança de imposto, até do que não se possui, e que, em tempo de eleição são uns "santinhos", depois banana pras bestas que votaram neles!!!!

Eu vou-me embora, sim e levo meus filhos comigo!

 

Maria do Céu : (Entra no casebre, depois sai trazendo os filhos) É, vamos partir enxotados pela fome! Seja o que Deus quiser!

 

(Alonso, Maria do Céu e os três filhos conduzindo seus poucos pertences, caminham em silêncio, tristonhos... Ouve-se a buzina do pau-de-arara).

 

Música : Triste Partida  (Luis Gonzaga e Patativa do Assaré)

 

(narrador)

 

Ah! 1953  miserável! Maldita repetição de 1854! Cópia infame de 1877! Amaldiçoado retrato de 1898! Ampliação excomungada de 1915! Amaldiçoada imitação de 1932! Seca Maldita! Época de fome, tristezas, desalentos, tormentos, incertezas e de mais tudo o quanto não presta em cima da terra. Levando tudo de eito. Não deixaria plantação, não deixaria criatório, não deixaria gente. Mas ainda havia gente que teimava em ficar. Ficar pra votar nas eleições, como para pagar impostos, bem como para quando outra seca viesse encontrar alguém para regalo. E ainda que as secas não queiram, que os homens do governo não queiram, o sertanejo vive. Parece mesmo que sua alma tem raízes profundas encravadas naquelas caatingas secas.

Falta um Pedro II para repetir o que dissera em 1877: "Venda-se o último brilhante de minha coroa, contanto que não morra um sertanejo de fome!"

 

 

 

(Todo o elenco retorna ao palco para os aplausos)

 

 

 

 

 

 

FIM

 

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