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Boa noite! Domingo 08 de Dezembro de 2019  -   Passagem das Pedras, Picos - Piauí

Postado em: 15/05/2014 - Por: Fontes Ibiapina - Visitas: 1493

A Dívida

A Dívida é um conto retirado do Livro Chão de Meu Deus de Fontes Ibiapina

A Dívida, de João Nonon de Moura Fontes Ibiapina. Premiado no Concurso Permanente de Contos da revista A Cigarra, e publicado na edição de setembro de 1956.

A Dívida

Conto retirado do livro CHÃO DE MEU DEUS de João Nonon de Moura Fontes Ibiapina.

Premiado no "Concurso Permanente de Contos" da revista A Cigarra, e publicado na edição de setembro de 1956.

Publicado no suplemento literário do Jornal Folha da Manhã, Teresina, na edição de 16 de fevereiro de 1958.

 

Eu era pequeno quando conheci João Viriato. Via-o, constantemente, quando ia a nossa casa de campo, comprar carneiros para o seu açougue. Dizia ser cearense, mas os erres enrolados nas palavras - corda, cordão, cortar e outras, e os eles cancelados em natal, capital, carnaubal, etc., denunciavam a sua procedência do Estado da Paraíba. Por isto mesmo, isto é, pelo motivo de negar de onde havia vindo, fazia-se um cálculo de ser um criminoso de vereda.

Chegou em Picos depois da grande seca de 1932, puxando uma cachorra. Não trouxe família, não trouxe nada. Vinha com uma mão no fecho e outra no cano. Só com a coragem e a cara. Os filhos de candinha diziam que ele desprezara a mulher, lá nos sertões de onde viera, por infidelidade. E apareciam mil e uma histórias:

- Tirou a vida da mulher e do amante.

- Foi cabra de Lampião. É Volta Seca.

- Matou cinco num forró.

Aboletou-se na fazenda Veados, de propriedade do Coronel Chico Santos. Começou a vida baldrocando jumentos. Transferiu-se para açougueiro. E terminou conseguindo um pé de recurso. Anos depois, arranjou um xodó com uma cabocla e veio para Lagoa Seca, onde botara uma bodega bem sortida.

Não tardou a botar as unhas para fora. Arrotava valentia de meter medo a qualquer barbado. Para todo lugar que ia, levava uma peixeira e um revólver nos coses das calças. Um belo dia, com uma peia ensebada, deu uma sova em dois molecotes que se meteram a roubar melancia em sua roça. Estes, coitados, se viram tão aperreados, que resolveram a se retirar para as extremas de Pernambuco. De outra feita, quis coçar os couros da mestiça Anita Broca. A carreira foi tão pequena, que a cabocla botou no mato um brasileiro que se alojava em sua pança.

Um dos maiores sambistas Dalí, Eliseu das Barreiras, já não mais podia ir a uma fuzarca. Pulava cerca para não se encontrar com João Viriato. Interessante é que ele se rixara com Eliseu por causa do namoro com uma arigó que não era sequer sua aderente.

Era assim mesmo o acalenta-menino da Lagoa Seca. Tomava as dores dos outros para si e danava o pau a abrir pacote com Deus e o mundo. Uma onça canguçu naqueles arrebaldes. São palavras suas:

- Comigo é assim: escreveu não leu, o pau comeu. Topo toda parada. Da banda que aliso sou um ralo; da outra, um esporão de galo.

Quando chegava num samba, tomava a frente e fazia o que bem entendia. Aconchegava-se a o homem do fole, e se prontificava:

- A cota sou eu quem vai cobrar. Deixe tudo correr por minha conta. Aquele que não pagar, não dança. Seja quem for. Quem canta de graça é galo, e quem trabalha pra macho é relógio.

Dizia e fazia. Aquele que não tivesse dinheiro na ocasião, cochilava a noite toda pelos pés das paredes.

Morrer de morte matada, todo mundo sabia que ele não morria. E não havia quem não tivesse medo de ir para a cidade dos pés juntos a mandado de João Viriato.

E era verdade mesmo. Andava doido para mandar alguém conversar com São Pedro e se pesar na balança de São Miguel. Os caboclos dali já o sabiam bem, dado as suas proezas. Todavia, qualquer um que tivesse noções de ciência de Lombroso e Ferri, O sabia também ao vê-lo pela primeira vez. Tinha quase todos os caracteres do criminoso nato do velho Lombroso. Testa pequena e fugidia, órbitas dos olhos dilatadas, barbas plantadas a sovela, cabelos abundantes - pretos e lisos, braços relaxados, orelhas grandes e cabanas. Não usava tatuagem, porém, parecia ser analgético, pois, quando estava numa roda de gente, gostava de pegar um alfinete e enfiá-lo na perna até topar! Quanto à disvulnerabilidade, nada sei. Possuía algo de ambidextria; assinava o nome, em idêntica caligrafia, com qualquer uma das mãos.

Será que tudo isto seja coincidência?! Limito-me, apenas, a dizer que cheguei a acreditar nos adeptos da ESCOLA ANTROPOLÓGICA do vasto e emaranhado campo do DIREITO PENAL.

Selou um burro famoso, botou a cartucheira, o revólver e a peixeira na cintura:

- Té amanhã, Margarida, ou até dia de juízo.

- Deixe de doidice!... Não teme os castigos de Deus?!

- Pode ser que seja hoje o dia de pagar a minha dívida.

Todas as vezes que saía para uma infuca, era assim que se despedia da companheira.

Havia dias que o forró estava apalavrado. Ia ser de abafar. Viria gente de todos os recantos. Só o tocador, chamava a atenção da caboclada. De fato - Joaquim Arcanjo puxava bem em sua sanfonazinha.

A festa estava animada. Cachaça, dança, moças bonitas. Todo mundo brincava. Bebia e dançava na mais perfeita harmonia. Morenas fortes, de vestidos rendados, cabelos longos e presos em fitas, davam ao ambiente um ar de simplicidade naquela diversão tão característica do povo pobre, rude e honesto dos sertões nordestinos.

Mais ou menos meia noite, Joaquim Arcanjo entregou o fole para um garoto seu irmão, e foi dançar.

João Viriato se queimou:

- Não pode ser, seu fulano!... Todo mundo pagou foi pra você tocar.

- Tenha paciência, moço... Vou rodar duas partes somente... A dama já está figurada. Também é impossível eu não balançar o esqueleto, numa festa tão boa como essa! Tenha paciência!...

- Quem não pode com o pote, não pega na rodilha. Esta é que é a verdade, curta e certa. Todos pagamos pra você tocar. Foi ou não foi? Se não aguenta o tempo no fole, devolva o dinheiro, e está tudo acabado.

- Sim, eu sei disto. Mas é que o menino faz o mesmo traçado.

- Não quero saber de desculpa mole. Quem vai tocar hoje até o sol raiar é você, que foi quem recebeu a bolaça da cota.

A conversa terminou. E Joaquim Arcanjo foi dançar. João Viriato ficou numa cadeira, de pernas cruzadas, bem enfarruscado.

Levantou-se. Pegou no braço do rapaz, e, calmamente:

- Está satisfeito? Tenho uma conversazinha com você. Duas palavras somente. Faça favor.

(Se Joaquim Arcanjo adivinhasse que as duas palavras eram duas balas, talvez não o tivesse acompanhado).

- Pois não... Com todo prazer.

Na ponta do terreiro, Joaquim Arcanjo interrogou, com a voz um tanto trêmula:

Tem algum negócio importante a tratar comigo?

Não fechou a boca. Sentiu uma mão pesada nos peitos, e dois tiros secos tamparam-lhe os ouvidos. Na agilidade dum gato, sacou da peixeira e, com uma frunchada um pouco acima do umbigo pôs por terra o acalenta-menino daqueles biboques.

As mulheres, e alguns homens, se meteram de casa adentro se valendo de todos os Santos da Corte do Céu.

Alguns se aproximaram. Dois corpos estirados na areia do terreiro acabavam com a festança. Joaquim Arcanjo gemia baleado numa perna. João Viriato estava pronto, de cabelo assentado, com os intestinos saindo pelo golpe da peixeirada. Decerto havia pago a dívida.

Contos do livro CHÃO DE MEU DEUS:

- O Forrozeiro
- Trinta e Dois
- A Dívida
- Tangerinos
- Tropeiros
- A Promessa
- Minhas Primas
- Rebentão

 

 

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