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Postado em: 21/08/2014 - Por: João de Moura Leal - Visitas: 842

Uma Cidade (João Moura)

Os Grandes centros

Uma Cidade: Perto do coração existe um aglomerado de quase gente, não fosse pela distância dos grandes centros...

Uma Cidade (João Moura)

Perto do coração existe um aglomerado de quase gente, não fosse pela distância dos grandes centros, talvez fosse apenas um aterro sanitário; contudo não o é, e sim um centro regional. Vale aqui ressaltar o frescor das paisagens: logo na chegada os carros andam em ziguezague para não atropelar uma manada de animais que pastam no verde que se cria do esgoto, cuja mistura que o compõe, é um emaranhado de maços de cigarro, papel de embrulho e latinhas (embalagens de bebida), sacolas plásticas e demais lixos jogados por outros lixos humanos que amanhecem fervilhando como um formigueiro desordenado; o que difere das formigas que são mais organizadas. Ainda se pode notar o mau cheiro daquela carniça mais recente (uma mula que o caminhoneiro da madrugada matou), quando passava cheio do arrebito, café e alguns cigarros de folha do mato.

Nos guetos escuros e formados nas décadas de 60 e 70, alguns absorventes usados, atirados com aquele ódio de quem perdeu uma boa transa, ou perdeu aquele amor forçado, pouco compreensivo... Noutra esquina o lixo mexido, revirado por suínos e indigentes que reviraram tudo atrás de restos de frutas e alguns pastéis duros, de pelo menos dois dias. Havia também o sangue de um moreno pobre que foi confundido com bandido pela polícia local e tomou vários tiros até que deixou de ser pobre, sendo encaminhado para o serviço funeral a que ele jamais teria direito noutra situação de morte.

Mas o maior charme da cidade mesmo é aquele travo incenso de ureia e ácido úrico derramado aleatoriamente sobre as calçadas mais baixas, tendo em vista que as mesmas são irregulares sendo algumas com 2 metros e outra dentro do chão (engenharia da escuridão analfabetismo); Já a feira se exibe de maneira imponente, frutas murchas que sofreram todo tipo de aperto, sol de 45°, mãos sujas, e ressaca de mais umas três feiras em outras idades. A vendedora, com aquele sorriso falha por perda quase total dos dentes, descasca uma banana preta e tenta mastigar, para provar ao pretenso cliente que é possível comer aquilo e não morrer! Depois joga a casca no chão e começa involuntariamente sapatear sobre a mesma. Tudo isso ao som da voz estridente da ceguinha que há muitas décadas canta suas tiradas de improviso e balança seu maracá pedindo óbolo aos que passam por ali. Porém a cega já não dá mais o sucesso de antigamente, está com a voz frágil, e ainda tem que disputar com um exército de celulares importados e seus recursos de aplicativos para músicas, o que trouxe um ruído insuportável de batidos confusos e degradantes de bandas absurdas com um ronco em modos de vozes humanas mas que não há quem compreenda o que dizem. Há também o vendedor de doces, com uma infinidade de batidas, alfenim, goiabada, cocadas, buriti... ele, o vendedor, pega na mercadoria com as mão sujas e nos oferece uma amostra do produto que está repleto de moscas, enquanto isso, se ver o pó da cinza do seu enorme cigarro caindo sobre os manjares.


Pessoas apressadas, de todos os lados, se espremem nos corredores do mercadão, onde pegam refeições; mas, precisam ter certa habilidade, pois há muitos cães à espreita de algum pedaço de carne que por ventura caiam e quando isso não ocorre, algum cão ousado, arrebata do prato do cliente num mordida certeira, deixando o freguês a ver navios!

O lixo hospitalar é um capítulo à parte nessa descrição de pormenores sendo jogado a céu aberto, fica por conta dos abutres que fazem a festa com o feto abortado, pedaços de vísceras cancerígenas e demais petiscos para esses companheiros dos garis, que nem sempre estão a postos, por questões contratuais terceirizadas que culminam muitas vezes num calote em massa... Não é o caso de desativar o ambiente, pois o matadouro é logo ao lada e sempre há um abutre mais ousado que se engalfinha com os magarefes para dar uma bicada na carne fresca do boi que acabou de ser matado. A eutanásia sempre fora liberada para os bovinos!


Depois de nutridos os urubus têm uma tarefa mais suave que é a de produzir o cartão postal da cidade, ficar em cada cumeeira dos casarões, nos postes, e até mesmo nos canteiros centrais - mansinhos como quem já faz parte da comunidade há tanto tempo. Talvez eles, os abutres tenham a mesma dúvida de muitas pessoas que por ali circulam todos os dias: onde está e quem é o governante desta cidade? Uma vez que os humanos só o veem no jornal, mas aquilo pode ser uma lenda, pode existir com outra idade que não a que se apresenta na foto ou ainda pode ter morrido há muito tempo e servir apenas de símbolo para outros elementos estranhos, desconhecidos que vão sobrevivendo no puder em surdina...

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