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Postado em: 20/05/2014 - Por: Nonato Fontes - Visitas: 3029

O Jumento e sua sina

Vítima da injustiça dos homens

O Jumento e sua sina: só sei que eram muitos jumentos apertados, exprimidos... Hoje és vítima da injustiça dos homens...

O Jumento e sua sina

Hoje no meu local de trabalho, estava eu na minha curiosidade natural do ser humano, olhando a BR, velha e conhecida dos picoenses e também dos brasileiros que por aí a fora moram ou tiram férias, que é outra curiosa mania do ser humano, conhecer outros lugares, outras culturas, outras belezas e outras...

 

Mas vamos ao que interessa.

 

Como estava dizendo, a "VELHA TRANSAMAZÔNICA", onde passa o nosso alimento de cada dia, onde se foram nossas paixões de adolescente, onde viu passar muitos de nós atrás de sonhos distantes, alguns ficaram pelo caminho, outros lhe beijaram o asfalto - como se beija a boca da mulher amada - no retorno à terra-mãe.

 

Eu, por exemplo, cá estou abismado, embasbacado, trucidando os poucos neurônios sãos que ainda me restam para sem nenhum bucolismo, aliás, com um pouco, mas sem chegar ao seu grau hierárquico maior, colocar neste papel o que passou agora a pouco em forma de carga pesada num caminhão 1113 Placa de Picos no Piauí: antigo celeiro produtor de alho e cebola, dona de uma das maiores feiras-livres do país, de culturas diversas - que funcionam às avessas - perdoe-me, escapuliu! Pois bem, iam ali sem lona, sem corda, essa segunda não lhes afetariam, pois já eram muito acostumados com ela, nasceram e cresceram sendo amarrados a troncos de árvores, cercas, porteiras, etc, nem sei quantos, que os olhos não são bons de matemática, só sei que eram muitos JUMENTOS apertados, exprimidos, cabeça contra cabeça, lombo contra lombo, cabisbaixos, como se alguma coisa os impelissem a beijar o chão da carroceria. E passaram, ou melhor, e passou o caminhão levando todos aqueles pobres e infelizes que o destino não lhes atou o nó da sabedoria.



E agora cá fico eu repuxando o fio do passado, "dos Picos nos tempos dos currais, carnaubais", dos homens sem motores, sem cidade nos olhos e nas mentes. Nos tempos dos veículos de tração animal onde as marcas eram cavalos, burros, éguas e tu jumento, que nós humanos tanto nos servimos do teu trabalho hora transportando o milho, o arroz, o feijão, a melancia, a abóbora, também o bêbado no caminho da feira pra casa. E a tua maior marca que mesmo o pior dos míopes jamais irá esquecer, aquele trajeto com o maior de todos os homens à suas costas, "O MENINO JESUS".

 

Hoje és vítima da injustiça dos homens, que não souberam agradecer os trabalhos prestados ao longo dos tempos, e agora vais assim nem sei pra onde, só sei que a tua história é grande e nos transporta através dos tempos, dos tempos de eu menino no povoado saquinho nas terras de seu Ciro Borges, o grande "bem-te-vi", jumento de estimação, o qual eu prefiro chamar de professor, pois foi ele que numa disparada comigo à sua montaria me ensinou que jamais se deve tirar os pés do chão. Hoje vão ali muitos "bem-te-vis" sem destino certo. Eles que já foram até notícia em revista do estrangeiro. Cantado por muitos em muitas canções. Vão ali desprovidos da sorte, sendo uma das maiores vítimas da lei dos homens que diz que animal não pode ficar solto na pista e nem na cidade. Há um ditado do povo que diz: "a lei dos homens favorece o mais rico", se fosse assim, na lei dos animais o pobre era o Jumento.



Mas um fio de esperança, que é outra grande e curiosa mania do ser humano sempre ter esperança, me entrou de cabeça adentro e se alojou no trapézio da mente, quem sabe um dia lendo um jornal ou acessando uma das páginas da Internet não encontre uma notícia a respeito de todos vocês que ali iam e de muitos outros que não couberam na carga, desfrutando de um lugar de alimentação farta, boa água, e sem nenhum menino metido a vaqueiro a lhe judiar, nem o pseudo-peão a lhe laçar o pescoço e jogar ao chão, um lugar onde tu possas descansar, ser livre e andar pasto a fora se espojando, correndo no teu jeito desengonçado - que é uma naturalidade do Jumento - sem lenço, sem documento marcado na tua pele dizendo o nome do teu dono, um lugar onde a lei não te castigue, tu que já nascestes castigado pelo destino, onde o teu tratamento equivala a tua servidão, onde os homens sejam mais humanos e menos violentos, aí sim, me deixava feliz. Por enquanto fico eu pedindo a aquele que um dia tu carregastes numa fuga para o Egito que te guie na tua fuga para longe dessa gente que esqueceu o teu valor. "VELHO JUMENTO".

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