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Postado em: 17/09/2015 - Por: Nonato Fontes - Visitas: 1229

Era uma vez uma estória sem pé nem cabeça

A estória de Juvenal faz parte do universo dos contadores de estórias sem pé nem cabeça.

O que admirei é que ninguém contestou a estória de Juvenal... Sabiam todos, logo no início, que se tratava de estória sem pé nem cabeça.

Era uma vez uma estória sem pé nem cabeça

Conheci um camarada, ainda quando adolescente, não me esqueço de nem um minuto o seu jeito de contar estórias, destas que ninguém é capaz de acreditar, também não era possível descobrir a verdadeira origem do caso contado, pois sofria contradições ao ser questionado depois. Era um espertalhão na arte de contar anedotas, e um fracasso na hora de segurar a verdade.

 

Juvenal era mais conhecido como faz-me rir, não contavam a origem do apelido, mas diziam ser do jeito atrapalhado de se safar das mentiras contadas. Sabiam todos, logo no início que se tratava de estórias sem pé nem cabeça.

 

Certa feita, Juvenal saiu de casa ainda cedo, pelas seis da manhã. Sua mulher ficou na expectativa de ser a procura de um emprego, visto que Juvenal necessitava de um trabalho, os bicos que fazia, não davam para sustentar seus vícios: Fumar e jogar baralho. Neste segundo ele era muito bom, poucas vezes saia perdendo, contam que desconfiavam de trapalhadas no jogo, mas jamais descobriram como.

 

Pois Juvenal neste dia não retornou a sua casa, passaram meses sem notícias, sua família caiu em desespero, até polícia entrou em ação para descobrir o paradeiro do homem. Foram bilhetes para parentes em São Paulo, até seus amigos fizeram coro na busca de notícia. Mas nada, até recompensa foi levantada para quem descobrisse onde Juvenal se encontrava. Felizmente, naquele tempo nem se ouvia falar em crimes como os de hoje, nem mesmo drogas existiam, por isso, a esperança de encontrar Juvenal com vida virava uma certeza.

 

Depois de alguns meses, numa quarta feira por volta da meia noite, veio uma gritaria da casa da vizinha da direita, mulher de Juvenal, por hora um medo tomou conta de mim, somente passageiro, pois logo fui acudido pela grande notícia do aparecimento do moço. Juvenal tinha como veste, uma roupa brilhante, parecia de carnaval, os sapatos, era de uma espécie de couro raro, não era bonito, mas jamais tinha visto igual.

 

A noite se passou sem nenhuma pergunta sobre o paradeiro, somente entre abraços e choros de alegria de seus familiares e amigos. Mas, como a curiosidade e o sumiço atraia uma indagação, não demorou muito para que viessem as primeiras. Em encontro na praça da castanhola, vizinho a banca de D. Zefa, havia um senhor que bancava um caipira, era uma diversão da garotada. As apostas eram castanhas e todos eram capazes de angariar recursos para a brincadeira, pois era época dos cajus. Neste dia Juvenal estava por lá e, em resposta a uma das perguntas sobre o sumiço, ele saiu com essa sem pé nem cabeça:

 

Na estrada de Barrocas, lá na beira do riacho das éguas, eu estava tentando lavar meus pés quando vi um enorme foco de luz que rebrilhava nas águas escuras do riacho. Parei um momento tentando entender o que era aquilo, até que sumiu, quando olhei para cima, nada vi. Somente depois de dois toques no ombro, quando virei às costas foi que descobri do que se tratava, eram os extras terrestres que estavam ali. Tinha uma enorme nave redonda por trás deles, bem próximo onde estávamos. Tentei dialogar com o que estava comigo, mas ele não entendia meu idioma, nem eu o dele. Fui segurado pela mão, fria que nem gelo, e que tinha apenas três dedos longos, era repugnante. Levou-me até a nave e depois, parece que adormeci, pois somente dei por mim quando estava em um lugar totalmente estranho, parecia um parque, tudo era cheio de luzes. Fui colocado em uma espécie de casa, só que era redonda, tinha duas enormes antenas no teto, saia de dentro uma escada que se desmontava e montava automaticamente, não precisou dar um passo para chegar lá dentro. O chefe deles parecia ser o poliglota da turma, pois entendia minha linguagem e falava como eu. Ficou fácil compreender o que estava acontecendo.

 

Minha conversa com o chefe dos extras terrestres travou-se em muitas horas, pois cada colocação a respeito da operação em que eu fazia parte, me chamava à atenção. O que eu representava de importante para que eles me escolhessem? Pois segundo o chefe, era um estudo a respeito de um quociente intelectual das raças. Não sei bem o que queria dizer, mas segundo ele, estavam testando qual planeta tinha se desenvolvido melhor devido a um grau maior do QI dos seus habitantes. Depois de me examinarem e colherem minhas respostas a respeito da consolidação do movimento das raças em meu planeta, foi que me liberaram e, com certeza, ficaram muito admirado com minha capacidade, ainda acho que vão precisar de mim para concluir seus trabalhos.

 

Juvenal saiu de fininha, o que admirei é que ninguém contestou a estória. Fiquei ali por um momento para saber se comentavam alguma coisa a respeito daquilo. Foi seu Lourenço que saiu com a melhor, combinou com todos para que não desmentissem o homem, deixasse para ver até onde ele ia conseguir segurar aquela anedota. E ele tinha razão, pois Juvenal era sempre assim, era pego em contradição muito fácil, bastava esperar umas duas semanas e perguntar como foi a conversa de novo, ele não se lembrava de quantas já tinha inventado, e nem como foi, se entregava tranquilo.

 

Duas semanas depois, foi a vez da fisgada em Juvenal, quando perguntaram outra vez sobre a sumida, ele se atrapalhou. Disse ter ido à casa de Severina, uma cega que vivia separada do marido e que tinha um xodó com ele. Quando estava lá foi perseguido pelo marido da mulher, ainda teve que sair rolando pelo chão para se desviar de dois tiros de bate bucha a queima roupa, se eu não fosse muito ligeiro estava com o traseiro todo picotado, tive que ficar esse tempo todo fora, dizia ele. Aí não deu para ninguém ficar calado, e foram aquelas gargalhadas todas. Juvenal, quando viu que a estória tinha se desmanchado, saiu como quem sai com medo da polícia, calado, quase sem ninguém perceber.

 

Quando se pensava que a fama de Juvenal em contar estórias sem pé nem cabeça tinha se acabado, qual nada! Bastaram outras duas semanas para ele se aprofundar mais na arte. Quem sabe um dia ele não vira um profissional, podia até procurar conhecer seu Lucena, o homem que fez uma cobra cascavel viajar de ônibus até são Paulo para cumprir sua sina de perseguir uma pessoa que lhe feriu, até encontrar e picar. Mas isso é outra estória, Querem ler? Clique aqui.

 

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